Quarta, 23 Setembro 2009
Leite Derramado
Eu até preferiria ter gostado mais de Leite Derramado, seja por simpatia ao autor, seja porque curti seu livros anteriores —adorei Estorvo, gostei de Budapeste e me contentei com Benjamin.
Gostei da forma do texto, de seu jeito leve e calculadamente confuso, principalmente em sua cronologia —afinal, trata-se de um homem centenário narrando sua vida a quem estiver à sua frente. Achei-o criativo.
Mas o fato é que o personagem —mais um fracassado, como nas obras anteriores— não me "prendeu". Ele próprio não fez nada de muito surpreendente em sua longa vida —seria isso o "leite"?; acho que não.
Além do "fundo" histórico, a parte realmente interessante é sua paixão inacabada por Matilde, o ciúme incontrolável, o mistério em torno do abandono, da morte da mulher.
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Segunda, 17 Agosto 2009
A Sangue Frio
Não sei ao certo por que, depois de tantos anos em redações, só agora fui ler A Sangue Frio, de Truman Capote. O que dizer de um livro sobre o qual tanto já foi dito? Ele é tudo o que já foi dito...
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Terça, 30 Dezembro 2008
Cora

Livraria da Vila, shopping Cidade Jardim, em São Paulo
Todas as Vidas
Vive dentro de mim uma cabocla velha de mau-olhado, acocorada ao pé do borralho, olhando para o fogo. Benze quebranto. Bota feitiço... Ogum. Orixá. Macumba, terreiro. Ogã, pai-de-santo... Vive dentro de mim a lavadeira do Rio Vermelho. Seu cheiro gostoso d'água e sabão. Rodilha de pano. Trouxa de roupa, pedra de anil. Sua coroa verde de São-caetano. Vive dentro de mim a mulher cozinheira. Pimenta e cebola. Quitute bem feito. Panela de barro. Taipa de lenha. Cozinha antiga toda pretinha. Bem cacheada de picumã. Pedra pontuda. Cumbuco de coco. Pisando alho-sal. Vive dentro de mim a mulher do povo. Bem proletária. Bem linguaruda, desabusada, sem preconceitos, de casca-grossa, de chinelinha, e filharada. Vive dentro de mim a mulher roceira. -Enxerto de terra, Trabalhadeira. Madrugadeira. Analfabeta. De pé no chão. Bem parideira. Bem criadeira. Seus doze filhos, Seus vinte netos. Vive dentro de mim a mulher da vida. Minha irmãzinha... tão desprezada, tão murmurada... Fingindo ser alegre seu triste fado. Todas as vidas dentro de mim: Na minha vida - a vida mera das obscuras!
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