Sábado, 08 Agosto 2009
Na trilha do velho rio - 6
Bom Jesus da Lapa, Bahia
Domingo, 8 de agosto de 1999
A miséria começa a ser cada vez mais constante. De São Roque até aqui, a diferença já é gritante. Na Canastra, encontramos gente simples que vivia da terra ou do turismo. A cada parada mais ao norte, a pobreza se acentuava. O norte de Minas é uma região pobre como já havia ouvido falar. Mas ao aproximarmos mais da Bahia, as diferenças foram saltando aos olhos.
Entramos na Bahia por Carinhanha depois de um dia difícil. Pedimos informações a um sujeito sobre como pegar a rodovia para Bom Jesus. Ele nos pediu carona. Depois dos acontecimentos da tarde, mesmo temendo cometer um deslize, concordei em levá-lo até um posto, como pedira, no início da estrada. Não consegui entender direito o que ele falava. Era analfabeto, acredito, e parecia estar embriagado, segundo Gustavo. Deixamos o sujeito no local combinado. Me senti aliviado. Quando ele saiu do carro, um homem já de idade (ou aparentemente) nos pediu carona. Depois do "embriagado", relutei em aceitar. Tenho certeza que Gustavo sentiu o mesmo.
Novamente pensei ainda estar em débito e concordei em levá-lo até Feirinha, um povoado a cerca de 40 quilômetros dali. O sol já se punha. Foi um bom acerto. Ao aceitar o pedido de carona, procurei compensar a ajuda que tinha recebido à tarde.
José contou-nos que era agricultor e havia sido assentado num terreno do Incra. Vivia de plantar milho e feijão com a família. Era pequenino e seu corpo era extremamente magro. Tinha o rosto queimado de sol e coberto de rugas profundas. Carregava um saco plástico com três pães do tipo para cachorro-quente.
Sua instrução educacional devia ser mínima ou nenhuma. Ele falava como os lavradores ou os retirantes que sempre aparecem nos telejornais. Vestia-se também como o estereótipo do homem rude do campo: camisa com alguma estampa, calça de tecido, sapato e um chapéu pequeno, que pouco poderia esconder seu rosto do sol.
José disse que – e a família, naturalmente – sofreu bastante com a seca do ano passado. E este ano já havia perdido tudo o que plantara, pelo mesmo motivo. Havia tomado financiamento num banco público – não me lembro qual. Estava endividado e não sabia como iria pagar o empréstimo.
Precisava ir a Feirinha, ou melhor, um lugar próximo dali para pegar uma guia ou um documento para entregar ao hospital em que seu filho estava internado. O garoto de 10 anos havia quebrado a perna.
O pai contou que há uns 20 dias o menino esteve bastante doente, com catapora. Imagino que nas condições em que a família vive, mesmo a catapora deve ser uma doença de risco. Mas ele acabou se recuperando. Ainda fraco, resolveu brincar em algum lugar – os adultos estavam trabalhando – e acabou machucando o pé. A família não deu tanta importância ao ferimento. Com o tempo, contudo, o pé do menino inchou, ele passou a ter febre alta, não consegui pisar, pôr o pé no chão.
A explicação do lavrador para este aparente "descaso" foi triste: "Nois é pobre." Segundo ele, a família acaba não dando a importância devida a problemas de saúde, esperando sejam resolvidos com o tempo – por Deus, imagino -, por problemas financeiros.
Só quando o garoto ficou com o pé bem inchado e chorava, ele o levou "no lombo de um animal" até Feirinha, em busca de atendimento médico. Uma chapa no hospital público constatou que o pé estava quebrado. O menino acabou internado em Carinhanha.
Deixamos José a aproximadamente um quilômetro ä frente de Feirinha. Era noite e ela ainda seguiria a pé por uma estrada de terra mais uns quatro quilômetros, segundo disse. Só pudemos desejar que tivesse sorte...
Foi um dia complicado. Chegamos a Bom Jesus por volta das 19h30 depois de um dia de viagem. Percorremos cerca de 150 quilômetros desde Carinhanha à noite numa estrada asfaltada, mas sem faixas marcadas e com sinalização bastante precária. Não podíamos ficar em Carinhanha, uma cidade onde não havia nada (como disse Simões [Edu Simões], um fotógrafo de São Paulo que encontramos na beira do rio e percorria o trecho de Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas).
Saímos de Januária por volta das 9 horas. Fomos até Brejo do Amparo, um vilarejo a uns cinco quilômetros dali. Buscávamos uma igreja construída por jesuítas em 1688.
É bastante bonita. Está "solta" no meio do nada. Há uma reforma, mas ela parece ter sido interrompida. Conseguimos entrar por uma porta lateral. A nave tem pinturas e o altar feito de madeira está vazio. Há material para obras espalhado por toda parte. Bem ao lado da igreja, existe um cemitério, com inscrições repletas de erros de ortografia.
Para chegar até a igreja é preciso passar Brejo do Amparo e percorrer um pequeno trecho de chão. Foi preciso perguntar em toda parte que passávamos para encontrá-la.
De volta a Brejo, paramos numa venda em busca de uma cachaça da qual já havíamos ouvido falar. Até o pai de Gustavo havia comentado com ele por telefone. Enquanto comprávamos a bebida, que o senhor da venda colocou em duas garrafas de Cinzano, uma mulher e um homem, ambos negros, entraram. Apressada, a mulher chamou pelo vendedor. Foi incisiva e pouco educada. Eu disse a ele que a atendesse, enquanto eu colocava as garrafas em sacos plásticos. Ela havia lhe pedido "a dela". O vendedor encheu um copo comum (esqueci o nome daquele copozinho de vidro mais comum) até a boca. A mulher o pegou e de um gole só tomou mais da metade do conteúdo. E partiu, enquanto o homem que a acompanhava reclamava que ela havia deixado pouca cachaça no copo.
De Brejo do Amparo, tomamos a estrada de volta a Januária. Pegamos outra até Itacarambi – uns 30 quilômetros.
Seguimos então por uma estrada de terra rumo a Carinhanha, na Bahia. Engraçado é que toda vez que falávamos algo de bom sobre a estrada ("não está tão ruim") ela piorava. Apesar disso, correu tudo bem (e lentamente) até Manga, um vilarejo isolado na margem oeste do São Francisco onde tivemos certa dificuldade para encontrar Coca-Cola. Foi algo em torno de 40 quilômetros até lá. Restavam mais ou menos 60 até Carinhanha.
A estrada de terra foi só piorando. Durante um bom tempo, sempre havia gado e casebres no caminho. Até que tudo ficou deserto. A estrada ficou tão estreita que apenas um carro poderia passar (embora não tenhamos visto nenhum outro). Havia apenas vegetação e a estrada estreita.
Ficávamos sempre de olho no marcador de quilometragem para ver se nos aproximávamos dos 60 quilômetros. Mas na velocidade que estávamos a marca parecia sempre distante.
Depois de muitos minutos (não sei quantos ao certo, uma hora talvez) passamos a temer estar perdidos. Talvez tivéssemos pego uma bifurcação errada, embora tivéssemos sempre percorrido o percurso principal. Mas sabe-se lá... Eu prestava bastante atenção na temperatura do motor. Fazia um calor infernal. O sol das 13 horas estava muito forte. A toda hora a ventilação do motor era acionada.
Por fim, para nossa alegria, chegamos a um povoado. Foi com alívio que recebemos a notícia de que estávamos mesmo na direção de Carinhanha e a balsa que nos faria cruzar o rio de mesmo nome, que faz divisa entre Minas e Bahia, estava próxima.
Seguimos as indicações do pessoal do povoado e chegamos a uma estrada de terra em condições precaríssimas. A terra parecia areia, de tão fofa. Mesmo em baixa velocidade, o carro "jogava" para o lado o tempo inteiro. Temi prosseguir e retornamos ao lugarejo para obter orientações mais detalhadas.
O mesmo sujeito a quem havíamos perguntado anteriormente disse que estávamos no caminho certo e bem perto da balsa, não deveríamos ter voltado. Eu reclamei da estrada e ele afirmou que era assim mesmo e dava para passar, carros pequenos sempre cruzavam o lugar. Retomamos o percurso.
Logo que vimos as marcas dos pneus onde fizemos a manobra para voltar, a terra foi ficando mais e mais fofa. Assim que passamos uma árvore bem no meio do trajeto, perdi o controle do carro na areia seca e paramos atolados. Foi desolador. Estávamos felizes porque o trecho de terra já estava bem perto do fim.
Não consegui ir para frente nem para trás. A roda dianteira esquerda rodava e rodava, jogando areia para todos os lados. Tentamos empurrar, colocar pedras para aumentar a tração, mas não conseguimos tirar o carro dali. Decidimos que Gustavo iria a pé até a balsa, que estaria perto, imaginávamos. Continuei tentando tirar o carro.
Foram cerca de três horas ali sozinho. Durante esse tempo nada aconteceu. Havia apenas o som dos muitos pássaros da mata, que a toda hora passavam voando sobre a estrada. Me senti no meio do nada.
Tentei como pude desatolar o carro. Cavei, enfiei pedras e pedaços de galhos. Deitei no chão embaixo do carro para poder cavar melhor e feri meus dedos na terra.
O sol estava horrível. A poeira invadiu todo o carro (não me preocupei muito em não me sujar e acabei sujando também o interior do carro).
Acabei desistindo. Estava preocupado com Gustavo. Só depois ele me contou que chegou até o local da balsa (não tão perto como o homem havia dito), que não estava lá. Pediu ajuda a um rapaz que estava do outro lado do rio.
Não sei direito, vou perguntar melhor a Gustavo (ele está dormindo agora), mas ele foi parar do outro lado, tentou ajuda, mas ninguém quis ajudá-lo. Ele disse ter ficado bem angustiado com essa situação.
Cheguei de carro ao Rio Carinhanha no exato momento em que Gustavo chegava na balsa ao trecho de Minas. Entrou no carro e, aliviados, nos dirigimos para cima da balsa. Acho que a foto da travessia deve mostrar a nossa situação.
Antes disso, depois das três horas solitárias na estrada e das várias tentativas fracassadas, decidi procurar Gustavo. Primeiro, comecei a andar na estrada apenas para ver se dava para avistar o local da balsa. Não dava. Pensei em prosseguir, mas havia deixado o carro aberto. Voltei, fechei tudo e comecei a caminhada. Uns 200 metros adiante, notei o sol já baixo (eram umas 17 horas) e me lembrei da lanterna no porta-luvas. Voltei novamente ao carro, peguei a lanterna e também a bússola (!?). Retomei a caminhada. Mais ou menos no mesmo ponto anterior (uns 200 metros), ouvi um barulho atrás de mim que parecia o de um motor. Vi poeira levantada na estrada, ainda longe, e comecei a correr até o carro.
Cheguei assim que o caminhão apareceu. Solicitei que parasse e pedi ajuda ao motorista. Ele disse que não tinha uma corda para puxar o carro, mas havia muita gente no caminhão. Ele os chamou e desceram mais seis homens que ergueram a frente do carro e o empurraram enquanto eu dava ré. Finalmente o carro estava livre.
Agradeci a todos. Eram pessoas simples que falavam errado: "Sozinho é pobrema, né moço?"
Decidi seguir o caminhão, que também tinha lá suas dificuldades com a terra fofa. Mas a nuvem de poeira que ele deixava era tamanha que eu não conseguia enxergar a estrada. Fui deixando que ele se distanciasse.
Não é que o carro parou de novo na areia? Motorista de cidade na estrada de chão....
Vi com agonia o caminhão seguir em frente, encaixei a ré e consegui sair. Não podia deixar isso acontecer de novo. O jeito foi não me importar muito com carro. Comecei a seguir, pus a segunda marcha, mantive o giro do motor sempre em alta e fiz um pequeno rali, jogando poeira para todo lado e tentando manter o volante sob controle até chegar ao local da balsa.
PS: Achei meu boné.
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Sexta, 07 Agosto 2009
Na trilha do velho rio - 5
Januária, Minas
Sábado, 7 de agosto de 1999
Pouco acontece em Januária, "a cidade que mais cresce na região", conforme a placa de entrada. Estou sentado em um banco de praça há mais ou menos meia hora. Passaram três carros e muitas bicicletas.

Três crianças brincam com uma enorme bola azul, um homem negro reflete solitário em outro banco, dois homens de bicicleta conversam apoiados no meio-fio (um deles carrega uma criança no cano). Enquanto isso, o sol se põe às minhas costas, escondido atrás de uma das duas sorveterias que "movimentam" a praça neste sábado.
Hora do rush! Mais cinco carros passaram e inúmeras bicicletas. Começa também a crescer o fluxo de pessoas na praça. Oito até agora.
Vim à praça para fugir do bar em frente do hotel. Januária parece ser a terra da música alta. Por onde fomos havia sempre um enorme alto-falante a despejar a potência das FMs em nossos ouvidos. Ainda aqui, em meio ao barulho dos pássaros, ouve-se ao longe o som de alguma delas, vindo sabe-se lá de onde.
Na praça, o carro da polícia serve de encosto para o policial militar de uniforme cáqui e o táxi permanece com os vidros abertos enquanto o taxista está "desaparecido".
Não é bem uma praça bonita, mas está longe de ser feia ou malcuidada. Há uma horrível construção de concreto, pintada de branco, no meio da fonte, e os bancos trazem "o oferecimento do vereador...", além da publicidade do comércio.
De manhã, saímos do hotel precário em que estamos (preciso me esquecer daquele carrapato) e fomos fotografar o rio uns 15 quilômetros antes da cidade. Havíamos cruzado a ponte de mais de 1 quilômetro sobre este trecho ontem à noite, mas pouco pudemos ver.
Depois, fomos à praia.
Parece uma mistura do Araguaia com uma praia de mar. Há boa infra-estrutura: bares com rancho, barqueiros, salva-vidas, campo de futebol, placas de advertência, estacionamento, etc., além de insuportáveis e gritantes alto-falantes. A população que freqüenta a praia de Januária está longe de ser de classe econômica mais favorecida, mas não há pobreza extrema.
Fiquei apenas observando o local, sob o rancho fresco de um bar. O calor no começo da tarde era insuportável.
(Aqui na praça, com a escuridão já se formando, noto que pela primeira vez há nuvens, imensas, no céu, desde que começamos a viagem. Será que chegaremos a pegar chuva no percurso?)
Na praia, não cheguei até a água. O sol estava muito forte. Gustavo experimentou pela primeira vez na vida uma praia de rio. Estranhou deixar a água sem sentir o sal na pele. Até que deve ter sido uma experiência interessante para um capixaba amante do mar...
Depois da praia, fomos ler no calçadão em frente do hotel. Pela primeira vez na viagem, comprei um jornal. Como é bom não saber do que está acontecendo. Ah! Ah! Ah!
Ontem não escrevi. Estava cansado e apaguei vendo o Globo Repórter sobre o fim do mundo (preciso ficar louco para ser mais normal). Foi um dia um tanto quanto perdido. Acordamos cedo para ir em busca de um barco. Nossa intenção era fazer o primeira trecho navegável do São Francisco (Pirapora-Juazeiro) de barco. Depois de tentarmos alguns barqueiros e pescadores, formos à Franave, uma companhia de transporte de cargas pela hidrovia. Conversamos com o presidente da empresa, depois de alguma espera (algo como uma hora).
Chama-se Lúcio. Amável e falante. Não é o tipo de pessoa de que gosto. Parece um negociante esperto.
Contamos nossos planos e ele nos autorizou a acompanhar uma fragata que estava sendo reparada em Pirapora. A previsão é que sairia apenas na quarta ou quinta-feira (estávamos na sexta), o que nos obrigaria a esperar pelo menos cinco dias em Pirapora ou viajar para conhecer outras cidades, como as do circuito do diamante – Diamantina, terra de Xica da Silva, principalmente.

Além disso, o barco levaria quatro dias mais ou menos até Ibotirama, na Bahia, onde receberia a carga, e de 10 a 12 dias até Juazeiro, também no Estado. Foram água abaixo nossos planos de navegar o primeiro trecho do rio.
Já dentro do carro, propus que fôssemos para Januária. Foi o que fizemos. Por causa do horário, já início de tarde, partimos já, sem nem fotografarmos direito a cidade.
Planejamos agora seguir de carro pelas principais cidades ao longo do São Francisco (Bom Jesus da Lapa, Juazeiro e Paulo Afonso) até Piranhas, onde tem início o segundo trecho navegável, pelo que constatamos nas poucas pesquisas que fizemos antes de iniciar a jornada. Lá tentaremos enfim navegar pelo rio – quem sabe até o mar.
PS: Não acho meu meu boné...
14:20 Escrito por fiume em Aventura, Fotografia, Viagem | Permalink | Comentários (0) | Tags: aventura, fotografia, viagem |
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Quarta, 05 Agosto 2009
Na trilha do velho rio - 4
Pirapora, Minas
Quinta-feira, 5 de agosto de 1999
Dia de estrada. Partimos às 9 horas de São Roque rumo a Pirapora. Só chegamos com o pôr-do-sol. Logo perdi o escapamento do carro na estrada de terra de São Roque a Bambuí.
No percurso ao longo do dia, cruzamos o rio três vezes. Em todas paramos para vê-lo. Na primeira parada, um pouco antes de Martinho Campos, ele já estava imenso, bastante azulado.
A segunda foi em Três Marias, ao lado da represa de mesmo nome. Estava ainda mais largo (300 metros de ponte). Desci ao leito para conversar com um pequeno grupo de pescadores. Estavam lá havia quatro horas (eram 16 horas), mas nada tinham pego. Vida difícil e monótona (pescavam com varas). Acho que consegui boas fotos dos pescadores, com o rio iluminado pelo sol já baixo.

A terceira travessia foi na entrada de Pirapora. O sol se punha, o que formava uma paisagem belíssima, uma vermelhidão sobre as águas correntes. Pena ter chegado lá quando o sol havia quase totalmente desaparecido.
Pirapora não é tão pequena como imaginava. Melhor! Amanhã vamos tentar descobrir um barco que nos leve (se tudo der certo) até Juazeiro, na Bahia. Falamos com o gerente do restaurante em que jantamos (comemos um absurdo, só havíamos comido um pão de queijo na estrada). Ele nos indicou um barco, mas temo que não haja embarcações que nos leve tão longe. Amanhã descobriremos.
PS: Decidi verificar os recados no celular. Não estava me importando muito com isso. Já havia falado com meus pais na segunda-feira e hoje e tudo estava bem. Se algo de grave tivesse acontecido, eles saberiam. Notícia ruim chega rápido. Havia quatro recados. Um era do Vita, do jornal, que pediu que eu ligasse para conversarmos sobre Brasília. Esta história já está rolando há uns dois meses, mas só agora nas minhas férias vêm querer "conversar"! Não liguei de volta. Não sei quando farei isso.
Mais perdas! Contabilizando: 1. Armani. 2. Escapamento (estava todo esburacado e decidi jogá-lo fora quando se soltou) 3. Uma mão da luva. O que mais vou perder?
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Terça, 04 Agosto 2009
Na trilha do velho rio - 3
São Roque de Minas
Quinta-feira, 4 de agosto de 1999
Nada de São Francisco hoje. Fomos à Cachoeira do Cerradão, num afluente chamado Santo Antônio. Fora do parque.
Foi uma boa caminhada. É possível avistá-la de longe. Imensa. Prosseguimos e a alcançamos. Mais de 200 metros de altura, em três etapas. A trilha até a base é repleta de mato e muitas, muitas pedras. Não foi uma caminhada fácil, mas exigiu bem mais agilidade que fôlego.
A Cerradão é imensa. Subimos até a base da queda principal, passando pelas duas primeiras, bem menores. Muitas andorinhas ficam voando no meio dela, dando rasantes com suas asas brilhantes e azuis. O Rio Santo Antônio, após a queda, corre por um imenso vale de fazendas até chegar ao São Francisco – encontro que não é possível ver da Cerradão.
A base da cachoeira é cheia de pedras, que formam um leito bonito. A água é extremamente gelada. Gustavo é bem mais animado que eu para essas coisas. Entrou sem desenvoltura (ou melhor, com alguma, embora pequena) em todas as lagoas na base da cachoeira. Eu entrei apenas uma vez, "forçado" a tentar resgatar o Armani que estupidamente esqueci de trocar pelos óculos de supermercado e deixei cair de uma pedra, num vão que não consegui alcançar nem com os pés. Busca em vão. Ah! Ah! Ah!
Depois de explorar bem a base da queda, refizemos a trilha de volta e fomos de carro até uma fazenda da região. Me lembrou um pouco da infância, quando ia visitar a fazenda do vizinho ou alguma outra de um amigo qualquer de meu pai. Me integrei bastante com a família que morava lá. Gente simples e pobre, que vive da roça sem energia elétrica e dorme às 20 horas.
A mulher de Zé Mário trabalhava no corte de um porco, cujas partes eram despejadas num tonel em gordura fervente. Depois, seriam embebidas na manteiga, para que não se estragassem. Vida no campo sem geladeira...
Zé Mário era uma figura como há muito não via, principalmente neste meus tempos de São Paulo. Um caipira mesmo, que fala "arribar pra cima é o único jeito, não tem jeito de arribar pra baixo". Parecia os caipiras de Goiás.
Conversei bastante com ele, com meu goianês. Falamos até sobre pequi, que não faz muito o gosto da família. "A trabalheira não compensa", explicou a filha dele, uma menina de uns 20 anos ou menos, cujas roupas estavam cheias de furos.
Tivemos um farto almoço caipira, com direito a uma dose de pinga para abrir o apetite, tomamos o carro até outra fazenda, para ver a Cerradão do alto. Cena impressionante. A poucos metros da casa da fazenda, corre um pequeno riacho, cujo leito seguimos. De repente, surge um precipício gigantesco, de onde as águas do riacho despencam formando a imensa queda-d'água. Tudo isso bem próximo da casa. Parece coisa de história infantil ou desenho animado.
Do alto, chegamos bem perto da beirada do precipício. Pedi a Toninho que segurasse meu colete nas costas, para que eu pudesse chegar ainda mais próximo e fotografar.
É fantástico ver do alto – mais de 200 metros! – o imenso vale à frente e o leito pedroso do rio seguindo rumo ao horizonte até se perder numa fenda entre os montes – sem contar a vista de todo o percurso que fizemos caminhando até a base.
PS: Duas sobre Gustavo: 1. Ele me disse que fotografasse, na fazenda no alto da Cerradão, as vacas que estavam num pequeno curral. Eram bezerros... 2. Entreguei meu boné a ele e disse: "Use." Ele tentou colocá-lo na cabeça e me devolveu: "Não serve." Gustavo está sempre entrevistando gente como o ministro da Economia e até o presidente da República, mas não sabe que existe um regulador de tamanho num boné...
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Segunda, 03 Agosto 2009
Na trilha do velho rio - 2
São Roque de Minas
Terça-feira, 3 de agosto de 1999
Entramos hoje no parque da Canastra. Logo chegamos à nascente do rio. É apenas um filete de água. Na verdade, há vários filetes que dão início ao rio. Estivemos em apenas um deles.
Seguimos depois até a Casta D'Anta, a primeira queda-d'água no rio. É maravilhosa. É preciso andar bastante, subindo e descendo, para chegar até ela – partimos do alto. Eu e Gustavo bancamos breathless trekkers.

A queda é espetacular. Tem 186 metros ininterruptos, que desaguam numa pequena lagoa. Uma visão paradisíaca. Saint-Hilaire deve ter pirado quando a descobriu, no século passado. A água, contudo, é geladíssima. Não consegui entrar. Pus apenas as pernas na água e simplesmente parei de senti-las, enquanto tentava criar coragem para prosseguir. Desisti...
Não havia sol – estava escondido atrás do morro. Isso dificultou um pouco as fotos. O contraste entre sombra e luz era muito grande. Esperemos para ver como ficaram.
Após a queda, o rio segue por entre pedras, formando um leito bonito e colorido. A água é sempre cristalina e bem fresca, excelente para aplacar a sede. Voltamos pela mesma trilha. Tudo bem descer. Subir foi bem mais difícil... E o sol das 13h30 não "ajudava" muito. Uma caminhada que deveria ter durado 1 hora custou mais ou menos 1h30.
Já de volta ao alto, apareceram os primeiros animais do parque. Havia um gavião, que teimava sempre em voar quando me aproximava para fotografá-lo. Também um pato mergulhador, que, segundo Antônio, nosso guia, está em extinção. Estava muito longe, porém. Não pudemos vê-lo direito.

Em cima, antes da cachoeira, há no rio uma piscina natural muito bonita, que retém a água até a primeira queda, ainda pequena, e onde nadamos, depois. Em seguida, há outra piscina, bem maior, que antecede a grande queda. Belíssima!

Da beira da queda é possível ver todo o vale entre a Serra da Canastra e sua vizinha. Vê-se ainda parte da Casca D'Anta e da piscina em sua base e todo o leito que se segue. Vê-se também todo o percurso que fizemos até embaixo e a volta.
Na estrada de terra rumo a outra cachoeira, cujo nome não me lembro, avistamos um lobo-guará. Solitário e belo. Suas pernas altas lhe dão um porte elegante. Já havia visto guarás em zoológicos, mas vê-lo ali solto, num imenso descampado, foi espantosamente tocante. Tentamos nos aproximar, caminhando no capim seco, mas ele sentiu nossa presença e fugiu.

No caminho até o carro, Toninho Lacraia, como o guia é conhecido, apontou bem longe um tamanduá-bandeira. Decidimos ir até ele. Demos uma volta, um meio círculo, para que fôssemos na mesma direção que ele. Nos aproximamos, mas ele nos notou e começou seguir na direção oposta. Eu disse ao guia que, como já havia garantido uma foto com a objetiva, poderíamos correr na direção do animal para tentar outra de perto. Foi o que fizemos. Corri como um louco até o bicho, que passou a fugir em disparada. Cheguei bem perto dele, uns 5 ou 6 metros, correndo a seu lado. Parei e tirei a foto. O guia ficava gritando que não me aproximasse mais, pois ele poderia me atacar. Será?
O carro havia ficado muito para trás. Dava para vê-lo, pequenino, ao longe. Mais caminhada...
Fomos até a outra cachoeira e corremos (de carro) para ver o pôr-do-sol. Formava-se uma cor um pouco lilás em cima do imenso descampado montanhoso. Deslumbrante, como diria a Hilda...
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