Domingo, 16 Agosto 2009
Domingo sem fumaça
Posto 6, Vila Madalena
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Sábado, 15 Agosto 2009
Sábado sem fumaça
Genial, Vila Madalena
22:41 Escrito por fiume em Cotidiano, Fotografia, Vila Madalena | Permalink | Comentários (0) | Tags: fotografia, cotidiano, vila madalena |
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Na trilha do velho rio - 12
Penedo, Alagoas
Domingo, 15 de agosto de 1999
Não foi hoje que concluímos o percurso. Chegamos a Penedo à tarde e adiamos a ida à foz para amanhã. A cidade está um pouco mais distante do mar do que eu supunha.
Saímos cedo de Piranhas. Seguimos com tranqüilidade e paramos nas cidades à margem do rio para olhar: Porto da Folha, Guararu, Propriá. Fomos seguindo pelo lado de Sergipe até Propriá, quando cruzamos a ponte até Alagoas, já perto de Penedo.
Foi interessante ver como a paisagem mudou a partir de Piranhas. Desde que entramos no norte de Minas e no Nordeste, o cenário foi quase sempre de seca. A partir de Piranhas, no entanto, o verde foi aparecendo e mesmo o clima na estrada ficou mais ameno – à sombra, pois o sol continua castigante. Toda a paisagem tornou-se um grande vale verde, repleto de fazendas e plantações. O sertão ficava para trás.

Em Penedo, o São Francisco é largo e começa a ter uma coloração também azul, além do verde. A cidade é também mais bonita do que eu supunha. É feita de puro barroco, em ruas, casas, praças, igrejas. Há várias igrejas, todas belas. Chegamos a acompanhar uma procissão em louvor a Santo Antônio, que partiu de uma igreja pequenina. Abrindo alas para o santo ou seguindo-o, gente bem simples, que parecia ter acabado de sair do banho e vestido suas roupas mais novas. Crianças fantasiadas de anjos, outras de frades e uma banda de adolescentes; velhas senhoras de cabelos presos, a seguir o grupo pelas ruas de pedra sob o sol intenso do meio da tarde.
Chegamos ao fim da segunda semana de viagem. Parece bem mais! Passamos por tantos lugares, vimos tantas pessoas e a paisagem já mudou tanto que é como se estivéssemos na estrada há mais tempo. A Serra da Canastra, onde o percurso foi iniciado, parece bem mais distante, no relógio ou no mapa.
Amanhã tudo termina. Espero... Iremos de carro até um povoado vizinho, Piaçabuçu. Pretendemos alugar um barco de pesca que nos leve ao mar, pelo rio.
PS: 1. Só para registrar, sonhei que minha avó havia morrido. Eu e minha mãe subimos não sei por que no terraço de um edifício. Ela nos seguiu. Parecia cega. Caiu. Tentei impedir que ela chegasse à beira. Não pude olhar para baixo, para vê-la. Minha mãe olhou. Eu chorava muito.
2. Gustavo está preocupado. Cecília o pressiona para voltar.
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Sexta, 14 Agosto 2009
Na trilha do velho rio - 11
Piranhas, Alagoas
Sábado, 14 de agosto de 1999
Piranhas é realmente uma cidadezinha bem interessante. É uma das paradas das quais mais me lembrarei. Gostei muito de suas casas antigas e a bela vista do rio – a mais bonita até agora. Descobri mais algumas informações sobre a cidade numa reportagem exposta na parede da pousada.
Piranhas foi fundada no século 18, como arraial. Começou com pescadores. Segundo a lenda, um deles pescou uma grande piranha e, ao chegar em casa, notou que havia esquecido o cutelo. Disse ao filho que fosse ao "porto da piranha" buscá-lo. O nome ficou.
Sua arquitetura é belíssima. Há várias pequenas casas coloniais, cercadas por ruas de calçamento de pedras. Uma pequena travessia para o passado. Não pude visitar a igreja principal do povoado – Nossa Senhora da Saúde -, pois estava fechada. Data do início do século 19.
Por um bom tempo, Piranhas viveu em torno da estação ferroviária. Era entreposto que distribuía mercadorias vindas da Bahia para as cidades da região. O prédio da estação foi concluído em 1881. Foi autorizado por D. Pedro I em 1854, quando ele estava de passagem rumo a Paulo Afonso. O prédio hoje abriga o Museu do Sertão, que exibe vários objetos de uso corrente do sertanejo e muitas fotos sobre o cangaceiro Lampião, o rei, que foi morto bem perto, embora do outro lado do rio, em Angicos, Sergipe. A cidade foi bem marcada pelo cangaço.
De manhã, tomamos o barco alugado de um pescador, Zé da Marina (sua mãe), até a Praia de Angicos, no município sergipano de Poço Redondo. O local fica em direção à foz. Da praia, seguimos por uma trilha, guiados por Francisco, um garoto magro de uns 13 anos que trabalha como guia-mirim. Cruzamos o lugar, entre mandacarus e caatingas, até a grota onde Lampião, Maria Bonita e seu bando foram executados numa emboscada. A trilha, de aproximadamente 750 metros, foi a que os volantes abriram em 1938 para a emboscada. O rei do cangaço foi morto em 28 de agosto daquele ano.
Francisco – ou Tico, como sua família o chama – contava os fatos da emboscada e um pouco sobre a história de Lampião. Falava com um certo orgulho, ou talvez esta não seja a palavra certa. Gustavo lhe perguntou se considerava o cangaceiro um bandido ou um herói. Para ele, Lampião era um pouco dos dois. Apesar de roubar muitas cidades, ele daria parte do que tirava dos ricos para os pobres, numa espécie de Robin Hood do sertão. Será?

Foi uma experiência inesperada visitar da Grota de Angico. Para um nativo do distante Goiás, sinto, Lampião, Maria Bonita e todo o cangaço soam como algo imensamente longínquo, presente na cultura popular e nos livros de história. Nem sabia que o local da emboscada ficava tão perto do São Francisco. Imaginava que tivesse ocorrido no meio do sertão desértico.
Depois de Angico, voltamos a Piranhas e passeamos a pé pelas ruas estreitas num relevo sempre irregular. No barco, ainda a caminho da cidade, notei uma pequena igreja erguida na margem sergipana, em frente de Piranhas. Perguntei a Zé da Marina o que era. Ele nos contou a história, que soa como uma lenda trágica. Costumava ouvi-la de seus avós.
>Havia uma moça que morava com sua família na margem do rio. Noiva, havia se envolvido com outro homem. Decidira então fugir com ele. Marcou de encontrá-lo num morro próximo da margem. O noivo preterido, contudo, foi avisado e partiu ao encontro dela. A moça ainda esperava o amante quando o noivo surgiu. Tentou fugir e acabou morta. A capela foi erguida em sua homenagem no local do assassinato.

À tarde, fomos à represa da hidrelétrica de Xingó, em Canindé do São Francisco, na margem sergipana. Tomamos um catamarã. Foi um passeio bem (até demais) turístico. Achávamos que iríamos seguir rio acima (o que realmente foi verdade) para ver o canyon até perto da Usina de Paulo Afonso. Ficamos, contudo, apenas no lago de Xingó.
PS: Continuo cansado. Ainda tenho aquele meio desejo de concluir logo a viagem. Mas isso pode esperar. É preciso paciência. A expectativa para amanhã é grande. Iremos a Penedo e atingiremos a foz, o ponto final de nossa jornada.
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Quinta, 13 Agosto 2009
Na trilha do velho rio - 10
Piranhas, Alagoas
Sexta-feira, 13 de agosto de 1999

Estou no alto de um morro em Piranhas, uma pequena e bonita cidade de Alagoas. Gustavo dorme na pousada. O sol já se escondeu atrás de um morro. Vislumbro as águas verdes do São Francisco correrem em meio a pedras, entre morros. Visão magnífica!

(Neste morro há um monumento do povo do século 19 ao povo do século 20. Tive de subir 364 degraus até aqui.)
Decidimos deixar Paulo Afonso ainda de manhã. O plano era que passássemos a noite lá, pois estamos cansados. Mas depois do programa na Usina de Paulo Afonso, que terminou cedo (umas 10 horas), resolvemos seguir em frente.
Estou cansado. Fiquei resfriado e um pouco desidratado. Pela primeira vez na viagem, senti vontade que ela terminasse logo ou que parássemos um pouco. Mas já estamos muito próximos da foz. Logo poderei descansar.
A visita à Usina de Paulo Afonso foi boa. Curta, mas suficiente. Percorremos com o guia (como exigido) boa parte das instalações. Pudemos ver o canyon belíssimo formado pelo rio na região. É bem grande. Também pudemos ver a Usina de Delmiro Gouveia, de que já havia lido nos livros de história. É pequenina. Mas não para 1910, quando foi construída pelo dono de uma tecelagem, que acabou assassinado, provavelmente por ingleses que queriam se livrar da concorrência – a segunda versão é que Gouveia morreu a mando de coronéis por questões econômicas e políticas. Foi um pioneiro.

Seguimos de carro rumo a Canindé do São Francisco, em Sergipe, que pensávamos ficar à margem do rio. Há, porém, apenas uma cidade operária abandonada. Por causa da Usina de Xingó, Canindé foi transferida para um lugar mais alto. No percurso, vimos a Hidrelétrica de Xingó e sua represa.
Chegamos então a Piranhas. É uma cidadezinha fincada na margem alagoana do rio, entre morros. Tem casas coloniais, construções antigas e uma pequena praia, cheia de bares.

É bem tranqüila. Daqui do morro, ouço as vozes distantes das pessoas conversando, o barulho dos poucos carros existentes, o piado distante de pássaros, os cachorros latindo, os grilos... Já é noite.

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Quarta, 12 Agosto 2009
Na trilha do velho rio - 9
Paulo Afonso, Bahia
Quinta-feira, 12 de agosto de 1999
Alugamos um carro em Petrolina (aumentei meu prejuízo) e partimos. Passamos rapidamente por algumas pequenas cidades às margens do rio. Gustavo estava com bastante receio do trecho da estrada até Cabrobó, em Pernambuco, conhecido pelo índice alto de assaltos. Mas não houve problemas. Fizemos o trajeto durante a manhã. Estávamos no famoso Polígono da Maconha.
Após pararmos rapidamente em Santa Maria da Boa Vista e Orocó, chegamos a Cabrobó, cidade conhecida pelo plantio de maconha. Entramos na cidade para chegar até o rio. Chegamos a uma pequena e estreita ponte que cruzava um braço do São Francisco até uma ilha, tão grande que não parecia que do outro lado haveria o outro braço. Só havia espaço para um carro na ponte, de tão estranhamente estreita.
Seguimos pela ponte para tirar algumas fotos (um grupo de lavadeiras na margem e o que parecia um acampamento de sem-teto, na ilha). Do outro lado da ponte havia um portão. Ficamos curiosos, mas decidimos voltar de ré para prosseguir a viagem. Por azar, um caminhão, porém, havia entrado também na ponte. O jeito foi seguir com o carro até o tal portão. Havia dois homens que controlavam a entrada.
Pedimos para entrar por alguns instantes, apenas para fazer a manobra de retorno. Mas a dupla não concordou. Disse que não era possível. Apenas o "chefe" poderia autorizar a entrada e ele havia saído. Foi incrível e inacreditavelmente ridícula a situação. Estávamos presos, com uma grade à frente e um caminhão atrás.
Na entrada do local havia uma placa: Fundação Nacional do Índio – FNI. Ainda não conseguimos entender o que se passou. Não eram índios os homens que controlavam o portão nem os que estavam nos caminhões (havia outros atrás do primeiro) nem o grupo de pessoas que vimos um pouco mais longe, dentro do lugar. Também estranha era a sigla FNI, em vez de Funai.
Insistimos com a dupla de porteiros, sem sucesso. Gustavo tentou conversar com o motorista do caminhão. Sem resultados.
Apareceu então um sujeito jovem, de uns 25 anos. Talvez fosse o "chefe", não sei. Da janela do carro, expliquei que queríamos apenas fazer a manobra. Ele se aproximou do carro, na janela do motorista (eu, no caso), fazendo questão de mostrar o volume que havia em sua cintura, por baixo da camisa. Expliquei novamente o que pretendíamos, enquanto ele dava um rápida olhada no interior do veículo.
Fomos então autorizados a entrar. Fiz a manobra com o carro, pretendendo deixar logo o lugar. Mas um dos caminhões que esperavam na ponte pifou. O motorista não conseguia fazer o motor pegar. Eu mantinha motor ligado, a marcha engatada, pronto para partir. Foi preciso que o caminhão fosse empurrado. Esperamos que todos os veículos passassem pelo portão e conseguimos partir.
Foi uma situação realmente estranha. Ainda não sei bem o que aconteceu nem quem eram aquelas pessoas.
Seguimos então a viagem, margeando o São Francisco por Pernambuco, até o município de Floresta. A partir dali, a estrada tornou-se horrorosa. O asfalto simplesmente desapareceu. Foram 65 quilômetros de buracos, o que nos custou aproximadamente duas horas até Petrolândia.
Próximo da cidade, já avistávamos o lago imenso da barragem de Paulo Afonso. A partir dali, vimos imagens belíssimas, com o sol já baixo.
Petrolândia não parecia ser uma cidade rica nem grande, mas tinha uma orla no lago bem feita e bonita.
Continuamos o percurso rumo a Paulo Afonso. Por um pequeno erro do navegador (Gustavo), não seguimos para Glória, já de volta à Bahia, e entramos em Alagoas. Foi apenas um pequeno trecho no Estado, até cruzarmos o rio até a Bahia, chegando a Paulo Afonso.
A cidade é grande e parece ter sido planejada. Tem ruas largas e bem iluminadas. Espero que as bela imagens continuem surgindo.
PS: 1. Deixei o carro na concessionária em Juazeiro, solicitei a vistoria – de acordo com as instruções da seguradora. Solicitei urgência nos procedimentos e no conserto. Disse que estaria de volta em uma semana. E parti.
2. Perdi meus outros óculos escuros, os de supermercado.
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Terça, 11 Agosto 2009
Na trilha do velho rio - 8
Juazeiro, Bahia
Quarta-feira, 11 de agosto de 1999 (Dia do fim do mundo)
O fim do mundo foi tranqüilo em Juazeiro...
Hoje, finalmente navegamos pelo São Francisco. Contratamos um barqueiro e fizemos um passeio das 11 às 18 horas.
Fomos contra a correnteza, margeando o lado baiano do rio. O barco pequeno seguia devagar. Não tinha mais do que 5 metros e era bem estreito. Fomos observando lentamente a paisagem, muita vegetação, algumas praias, embarcações ancoradas e muitas ilhas no rio, que calculo tivesse mais ou menos 500 metros de largura.
Paramos numa destas ilhas, onde havia uma praia bonita, repleta de barracas. Estava semi-deserta e pudemos ficar tranqüilos a observar o rio. Tinha um nome curioso. Chamava-se Ilha do Rodeadouro. Não descobri por quê.
Navegar pelo São Francisco, mesmo nesta pequena embarcação, foi um experiência gostosa. A paisagem é bonita e pacífica.

As águas verde-mar do imenso leito "encontram-se" com o céu, formando um cenário de cores irmãs. Havia um exército de nuvens gigantescas no céu, que ora escondia o sol, ora não, tocadas pelo vento forte numa marcha ritmada. Um horizonte verdadeiramente deslumbrante.
Depois de deixarmos a Ilha do Rodeadouro, seguimos um pouco mais adiante, sempre observando a paisagem, ora na margem baiana, ora na pernambucana, e sentindo o vento forte na pele.
Pedi a Antônio, o barqueiro, que prosseguíssemos até um ponto em que poderíamos voltar e ainda assistir ao pôr-do-sol no barco. O sol deixa um imenso reflexo nas águas verdes do rio. Tirei muitas fotos. Espero que algumas tenham ficado boas.
Chegamos de volta a Juazeiro quando a noite já vencia o dia. Gustavo adorou o passeio. Tomou inúmeros banhos no rio e disse que estava tendo um dia de férias comme il fault.
À noite, depois de passarmos pelo hotel, cruzamos a pé a longa ponte até Petrolina. Ainda não havíamos estado em Pernambuco. Ficamos pouco tempo na cidade, mas é certamente mais avançada que Juazeiro. Tem mais movimento na orla, embora a de Juazeiro seja mais bonita, talvez pelo fato de o calçadão estar mais próximo do rio.
Petrolina tem alguns poucos edifícios de apartamentos (se é que isto é indicador de desenvolvimento). Um fato curioso foi o trânsito, bastante organizado e bem sinalizado. Motoristas e pedestres são educados. Fiquei surpreso ao notar que os veículos paravam assim que o pedestre punha o pé na faixa para cruzar a via.
Apesar de Juazeiro e Petrolina serem mais desenvolvidas que as cidades que havíamos percorrido antes, como Januária e Bom Jesus, preferiria estar em cidades como estas últimas. Nelas, havia pequenas coisas que considerei mais ricas culturalmente, embora isso possa parecer uma defesa da miséria. Não é. Não vi em Juazeiro casas coloridas e pequeninas como as de Januária, nem achei aqui personagens como Judite (ou Xuxa!), que vestiu seu bonito vestido branco só para que eu a fotografasse.

(Ela ainda me perguntou se ia aparecer na televisão por causa disso. Quando respondi que não e expliquei que levaria a foto dela para São Paulo, ela sorriu e disse: "Então o povo de São Paulo vai me ver, ora!")
Também não achei aqui pessoas como o lavrador José, cuja carona me fez sentir bem (será que seu filho se recuperou?) ou o velho bêbado que fotografei em Januária e dizia que iria comprar uma escopeta para matar um sujeito que queria fazer sexo com ele (bem, ele contou isso usando outras palavras...) ou as muitas pessoas que, ao me ver com o equipamento fotográfico, pediam que eu tirasse uma foto delas (Foi divertido. Era noite, eu usava o tripé. Pedia a todos que se juntassem e fizessem "pose". Eles enrigessiam corpo, deixando-o ereto e sorriam). Nem a velha de olhos caídos que em sua prece, em Bom Jesus, se lembrou nas três vezes de pedir pelo Brasil.
Achei-os personagens mais ricos que os que encontrei aqui. O barqueiro Antônio, por exemplo, pouco pôde nos contar. Só temo que estas afirmações possam soar como pregação da pobreza. Não são.
PS: 1. Gustavo fez um comentário de certa forma sarcástico sobre o acidente com o burro. Soou como uma insinuação sobre minha responsabilidade. Não é que não esteja certo. Gustavo iniciou uma road trip com a carteira de habilitação vencida há três anos. O aviso foi feito dentro do carro.
2. O carro permanece na concessionária. Solicitei de manhã, antes das 10 horas, um orçamento. Depois de insistentes ligações, às 18 horas ainda não estava pronto. Mau sinal....
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Segunda, 10 Agosto 2009
Na trilha do velho rio - 7
Juazeiro, Bahia
Terça-feira, 10 de agosto de 1999 (véspera do fim do mundo)
Matei um burro ontem na estrada. Foi o pior dos acontecimentos. Foi muito, muito rápido. Havíamos cruzado o São Francisco em Barra, depois de deixarmos Bom Jesus da Lapa. O motorista de um ônibus que cruzava o rio conosco na balsa e tinha puxado conversa já havia nos alertado sobre a presença de animais na pista até Xique-Xique.
Eu estava atento à luz de um veículo distante à nossa frente quando o animal "subiu" no capô do carro. Foi lançado longe. Eram mais ou menos 19h30. Gustavo chegou a me avisar. Ele viu o bicho primeiro. Eu disse: "Onde?" E foi só.
Foi tudo muito assustador. Gostaria de ter tido mais calma nos instantes a seguir. Nem bem olhamos as avarias, seguimos em frente.
Gustavo ficou extremamente assustado. Gritava que fôssemos embora logo. Temia que fôssemos abordados ali sozinhos na estrada. Isso nem passou pela minha cabeça. E se tivesse ocorrido com uma pessoa. É preciso calma nestas situações...
É preciso ter calma em qualquer tipo de acidente. Gostaria de ter avaliado a avaria do carro e dado uma olhada no bicho.
Quando vi o burro, milésimos de segundo antes da colisão, tive Rogério na mente. Me lembrei só dele, não do que lhe havia acontecido. Talvez por isso não tenha tentado desviar o carro do bicho.
[Há uns três anos, Rogério capotou o carro na estrada indo de Goiânia para Brasília ao desviar de um cachorro. Perda total do carro. Ele teve um arranhão na perna.]
O capô do carro ficou destruído. Um farol, o esquerdo, foi quebrado e a frente afundou, atingindo o radiador. Mesmo assim, ele rodou bem até Xique-Xique. Paramos num hotel e acionei o seguro.
Foi uma noite tensa. Gustavo ficou bem estressado. Não pôde comer direito.
Sou naturalmente o culpado pelo acidente. Confiei demais na minha "nova" visão. Aquele burro não deveria estar solto na beira da estrada; eu não deveria estar dirigindo à noite.
Foi uma sucessão de acontecimentos imprevistos. Logo de manhã, em Bom Jesus da Lapa, deixamos o carro para ser lavado. Não poderíamos prosseguir com toda aquela poeira dentro dele, por causa do "atolamento" do dia anterior. O conceito de lava-jato era bem diferente: o carro só ficaria pronto às 14 horas.
Fomos visitar a igreja no interior de uma gruta. É surpreendente. Não foram necessárias grandes adaptações. A gruta em si é um templo. Fica bem ao lado do São Francisco e é o grande palco de uma romaria anual, que perdemos por apenas dois dias de atraso, por desconhecimento.

Os freqüentadores da igreja são na maioria romeiros. Gente pobre e castigada, que reza por uma vida melhor ou pede uma graça. Bastava prestar atenção às rezas para constatar isso.
Num calor altíssimo, subimos uma trilha de pedras até o alto do morro, onde havia uma cruz. Dali via-se toda a cidade e parte do rio. Atento às reações dos fiéis, notei uma mulher já idosa, muito magra e pequena. Se eu e Gustavo subimos a trilha sem facilidades, fiquei impressionado como ela estava ali. Coisas da fé...

Ela me pediu fogo. Queria acender uma vela. Tinha a pele do rosto muito enrugada; os cabelos brancos presos atrás, mas ainda despenteados. Seus olhos eram avermelhados, como se estivessem irritados, e caídos. Estava na porta de um pequeno vão sob a cruz, onde havia a imagem de uma santa.
Depois de conseguir fósforos com outro romeiro, a velha ajoelhou-se sob a estátua, acendeu a vela com dificuldade – suas mãos tremiam – e fez sua prece. Com uma voz trêmula e estridente, pediu uma vida melhor para ela e sua família e "para todo o Brasil". Fez a prece três vezes.

Fiquei de certa forma intrigado, tentado a imaginar como seria a prece de uma velha de classe econômica alta, uma pessoa rica e bem instruída. Será que ela também pediria por todos?
Enquanto eu e Gustavo descíamos o morro, nós a encontramos no meio do percurso. Falava sem parar com uma mulher jovem que carregava uma criança. Eu mal conseguia entender suas palavras apressadas.
Perguntei-lhe o nome e o porquê do pedido coletivo. Não pude entender muito. Em resumo, porque o País precisava.
Uma curiosidade sobre o alto do morro. Há uma pedra cinza claro que pode dizer se uma pessoa tem vida longa ou não. Basta bater com um pedra pequena nela. Se a pedra grande "tinir", na linguagem local, a pessoa viverá bastante. Se não "tinir", pode já ir para casa para encomendar "o pijama de madeira", como nos explicou o dono de uma barraca de refrigerantes.
Acabei me esquecendo de bater na pedra. Melhor assim. Depois de todos os pensamentos dos últimos tempos, já pensou se ela não tinisse?
Havíamos mudado os planos e decidido deixar Bom Jesus assim que o carro ficasse pronto. Partiríamos, assim, às 14 horas para Xique-Xique, em vez de permanecermos mais uma noite na cidade.
Gustavo reclamava o tempo todo de Bom Jesus. Dizia que a cidade era pobre e suja. A sujeira o aborrecia bastante. Havia lixo jogado por toda parte, talvez por causa da festa de dois dias antes.
A cidade não era muito diferente do que eu imaginava. Mas a miséria havia se acentuado ao máximo até este trecho da viagem.
Na parte comercial de Bom Jesus, perto da igreja da gruta, a cidade era uma grande feira de todos os tipos de bugigangas: eletrônicos do Paraguai, comida, chapéus, bonés de grandes marcas falsificados, roupas, peneiras, pratos, copos, etc. Quase todas as bancas ficavam na rua, próximas da calçada, apesar do trânsito desorganizado, repleto de muitas e muitas motos e bicicletas.
Fomos ao hotel arrumar nossas coisas e saímos para almoçar. Não achamos um restaurante decente como na noite anterior. Comemos mal.
Seguimos até o lava-jato, que não correspondia ao conceito, mas decidimos ver o rio até que o relógio se aproximasse mais das 14 horas. Em Bom Jesus, o São Francisco parece bem assoreado. Há bancos de areia, muita sujeira nas margens, carcaças de barcos, e o rio parece "vazio",
O carro não ficou pronto no horário combinado. O atraso foi de quase 1h30. Isso acabou fazendo que nossa viagem até Xique-Xique invadisse a noite...
Hoje de manhã, dia seguinte ao acidente, a seguradora enviou um guincho para levar o carro avariado e um táxi para nos levar a Juazeiro, a 500 quilômetros de Xique-Xique, terra quente que nem vimos direito.
PS: 1. Na véspera do fim do mundo, ouvimos no rádio uma curiosa entrevista com Nostradamus, com um pouco de sotaque nordestino, e a história de uma mãe que foi parar na cadeia porque deu uma grande surra na filha de 13 anos que cedeu aos argumentos do namorado de que deveriam fazer sexo, pois o mundo iria acabar mesmo.
2. Tive um sonho em que morava numa casa enorme, cheia de grandes janelas. Crisã também morava nela. Ventava muito e tínhamos de fechar as janelas, que batiam sem parar. Também começou a chover forte. Além de Crisã, Irene estava no sonho.
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